segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Princípios do Movimento - Número 3

Continuando a série dos princípios do movimento, para aqueles que não leram os 2 primeiros capítulos, não deixem de fazê-lo (Princípio do Movimento #1Princípio do Movimento #2).
Boa leitura a todos!

Princípios do Movimento #3
Gray Cook

PRINCÍPIO 3:

"Avaliações biomecânicas e fisiológicas não fornecem uma completa análise dos riscos de lesão, ou uma ferramenta de avaliação diagnóstica para uma compreensão abrangente de comportamentos dos padrões motores."

Como profissionais, temos tentado resolver problemas de capacidade física com soluções que tem como objetivo capacidades físicas. Temos tentado aumentar habilidades específicas de movimento através de mapas detalhados de habilidades que são frequentemente praticadas nos limites da capacidade física. Estas práticas são valiosas se conseguirem identificar o elo mais fraco na cadeia de movimentos. No entanto, se elas simplesmente identificam problemas de habilidades e capacidades físicas causadas por algum problema de movimento fundamental (N.T: aqui Gray Cook refere-se a padrões fundamentais ou primitivos de movimento. Aqueles desenvolvidos na primeira infância, que são frequentemente perdidos em algum momento de nossa evolução motora, frequentemente já no início de nossa vida adulta), o foco somente nessas áreas, na realidade obscurece a rachadura na fundação inteira. Não é o telhado que está rachado, o porão é que está.

Essa é a minha maneira de dizer que o fato de eu ser proponente de uma análise de movimento não significa que eu desmereça testes de segundo ou terceiro nível. Para mim testes de segundo nível são testes baseados em performance: testes metabólicos, testes de capacidades físicas. Testes de terceiro nível seriam testes relacionados a habilidades desportivas específicas.
(N.T: Gray criou um esquema gráfico onde ele dispõe os 3 níveis citados no texto acima, ele chama o esquema de pirâmide de performance, que reproduzo abaixo).

PIRÂMIDE DE PERFORMANCE

















Se o seu VO² máximo é o melhor do mundo, mas você ainda não consegue vencer uma maratona, talvez o problema seja a sua mecânica de corrida. Talvez o problema seja a sua estratégia.
Existem diferentes camadas que temos que desconstruir e reconstruir nas pessoas que aconselhamos e treinamos.

Muitas vezes eu vou ver alguém com problemas de performance, seja de ficar mais forte no supino ou aumentar a resistência em um determinado esporte. Existe um erro fundamental ali. Nós frequentemente buscamos potência quando na realidade o que existe é uma eficiência pobre. Se não somos eficientes na maneira pela qual nos movemos, tornarmo-nos mais fortes realmente não nos dará mais potência porque as rodas estão patinando (N.T: aqui o termo em que traduzi como potência era horsepower, referindo-se a potência de um carro).

As pessoas que treinamos frequentemente demonstram um ganho extraordinário ou uma grande melhora em apenas poucas semanas. Não deveríamos ser tão ingênuos a ponto de pensar que suas capacidades aumentaram tanto no pouco tempo em que as treinamos. Ao invés disso, precisamos perceber que as fizemos mais eficientes. Nos ajudamos os seus músculos a se coordenarem com os respectivos programas motores do cérebro, para que não haja rigidez ou restrições desnecessárias e que elas não estejam lutando contra si enquanto se movimentam.

Muitas vezes quando não temos testes baseados no movimento e vemos deficiências em capacidades físicas ou habilidades, imediatamente oferecemos mais capacidade física ou mais treinamento técnico (N.T: referindo-se a treinamento técnico específico de alguma modalidade). Tenho visto isto acontecer muito em cursos de golfe, quatro instruções a mais para o swing (N.T: movimento de balanço do golfe), mas a pessoa não consegue nem se equilibrar no pé esquerdo.
Atrevo-me a dizer que aprender a equilibrar-se no pé esquerdo, provavelmente traria maior efeito no swing do que qualquer dica verbal dada em cima daquela base defeituosa. Isto não desvaloriza treino técnico; apenas aponta para a hierarquia citada anteriormente.

Competência no movimento vem primeiro. Capacidade física em segundo. Usando estas duas para então desenvolver movimentos baseados em habilidade técnica ou especialização, vem em terceiro

Podemos trabalhar nos três ao mesmo tempo. O que não podemos é colocar carga em um padrão de movimento que tenha uma base que não é sólida. E é sobre isso que este princípio do movimento trata. (N.T: Como Gray costuma dizer: "Não adicionar força em cima de disfunção").



























quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Encontro do Movimento 2013

Interrompendo a publicação da série Princípios do Movimento, escrita por Gray Cook, por um motivo especial, como muitos já sabem o autor da referida série e de muitos artigos publicados neste espaço, fará sua primeira visita ao Brasil.
Por meio da iniciativa do Prof. André Bellaguarda em parceria com a Profª Carla Sottovia (representante do FMS no Brasil), ocorrerá em março de 2013 o primeiro Summit International do Movimento, com a presença de Gray Cook, Lee Burton (co-criador do FMS) e de Chuck Wolf.
Não poderia deixar de prestigiar essa grande iniciativa, proporcionando aos que ainda não tiveram a oportunidade de ir aos Estados Unidos para participar de cursos com profissionais que tanto tem influenciado não só a minha, como a prática profissional de centenas de profissionais brasileiros.
Maiores informações no site do evento - www.simmovimento.com
Baita iniciativa, espero ver muitos dos amigos que prestigiam este espaço em Fortaleza em março de 2013.
Abraço a todos.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Princípios do Movimento - Número 2

Seguimos com os princípios do movimento, ainda contando com a valiosa contribuição do amigo Prof. César Silva, que foi quem traduziu novamente o texto.
Como de costume, inseri alguns vídeos e figuras que não constavam no texto original para fins de facilitar a compreensão de algumas coisas.
 Boa leitura aos amigos!

Princípios do Movimento #2
Gray Cook


PRINCÍPIO 2: “ O ponto de partida para a aprendizagem do movimento são parâmetros reprodutíveis de movimentos.”

Profissionais que trabalham com reabilitação física, atividade física ou com atletas, devem adotar abordagens sistemáticas que transcendem a especialização profissional e a especificidade da atividade. Profissões que lidam com movimento, precisam criar critérios para padrões de movimento. O livro “Movement” desenvolve dois sistemas que, usando a lógica, analisam e classificam o movimento utilizando padrões de movimentos fundamentais.

Todos nós praticamos movimentos em diferentes contextos. DEUS abençoe os locais onde se treinam kettlebells, pilates, ioga, campos de treinamento militar, treinamento esportivo, competições do homem mais forte do mundo, lutas, ginática, dança e etc...

Aprendemos e praticamos movimentos através de muitas metodologias diferentes, mas os movimentos não servem a essas metodologias, essas metodologias que servem aos movimentos. Posso enxergar como cada uma dessas disciplinas, e ainda mais algumas que não estão no texto, ainda poderiam concordar em um parâmetro para os movimentos.
Um parâmetro para o movimento, apenas cria uma fundação, uma base. O que quero dizer quando falo “uma base”? Não me refiro ao treinamento de força, resistência ou habilidade. Uma base para o movimento demonstra que você tem uma percepção adequada e uma capacidade para esse comportamento. Isso significa que você pode sentir o que está acontecendo do lado de fora durante o movimento e fazer internamente o que é necessário. Quando eu falo sobre uma base para o movimento, eu estou falando sobre alinhamento, mobilidade, estabilidade e propriocepção funcional. O que eu estou realmente dizendo, é que o seu sistema fundamental de movimento tem a capacidade de aprender.

Se notamos deficiências, disfunções, assimetrias, problemas de mobilidade, de controle motor, de estabilidade ou de equilíbrio, realmente não devemos esperar que uma rotina de treinos de pilates possa arbitrariamente resolver o problema. Pode ser que sim, ou talvez não. Você pode estar esperando que isto irá funcionar, ou que Turkish Get Ups, treinamento de força ou um pouco mais de aeróbicos possam resolver o problema, mas você não definiu claramente ainda qual é o problema.

video
Turkish Get Up

É muito importante para mim que embora tenhamos vindo de movimentos a partir de diferentes disciplinas, com diferentes habilidades e metodologias, ao menos devemos chegar a um acordo sobre os fundamentos e os princípios básicos de abertura das vias sensoriais, garantindo que as vias motoras funcionem.
Existem muitos tipos diferentes de elementos químicos, mas todos estão na mesma tabela periódica de elementos.
Todos que trabalham com mecânica de motores concordam com os princípios de combustão interna dos motores ainda que uns defendam a Toyota, enquanto outros defendam a GM.
Diferentes disciplinas ainda podem ter os mesmos parâmetros fundamentais. É muito engraçado que, quando falamos em fitness, desempenho atlético e treinamento, por alguma razão nós inventamos testes que sustentam e suportam a nossa área, mas que não podem criar semelhanças fundamentais.


Acredite ou não, muitas das técnicas de treinamento físico que nós utilizamos com jogadores da NFL (N.T: Liga Profissional de Futebol Americano), são usadas na clínica com pessoas com artroplastia total do joelho e vice-versa (N.T: artroplastia total, é a substituição do joelho acometido por uma artrose degenerativa por uma prótese).

Muitas das coisas que falamos no RKC (N.T: Certificação de instrutores de kettebells, emitida pela empresa do russo radicado nos EUA Pavel Tsatsouline) desde o Turkish Get Up até o Arm Bar (N.T: conhecido no Brasil como chave de braço), eu tenho utilizado em terapias no tratamento do pescoço, em tempo e local apropriado.
video

Kettlebell Armbar

Eu não estou preso em apenas um exercício ou apenas uma modalidade.
Eu vejo exercícios e movimento como um lindo continuum que começa com uma criança aprendendo a rolar e acaba com alguém ganhando o ouro olímpico nos 100 metros rasos. Tudo envolvido requer uma melhor entrada de informação sensorial, melhores vias neurais de comando motor e melhores comandos para padrões de movimentos.

Este segundo princípio é minha maneira de dizer: “Faça o que você faz. Se especialize no que você quer se especializar.” No entanto, se não podemos todos concordar que alguns alicerces fundamentais precisam estar no lugar antes de construir um prédio para a nossa área do movimento, estaremos perdendo o foco. Temos muito mais áreas comuns do que pensamos que temos e precisamos reconhecer isso.